Categoria: Sociedade / Trabalho / Formação Profissional
Autor: João Carlos Quelhas
A frase "entrar numa instituição ocupacional é quase como sair da sociedade" é uma expressão dura, mas é a forma como vejo este tipo de instituição. E não falo apenas de uma em concreto, falo de todas elas. Existem na Suíça diferentes instituições, empresas, fundações, escolas e programas que trabalham na integração, formação, ocupação ou preparação de pessoas para o mercado de trabalho, muitas vezes em colaboração com o RAV, serviços sociais, IV ou outras estruturas públicas.
Não pretendo falar das pessoas que frequentam estas instituições, nem colocar todas as situações no mesmo saco. Também não pretendo apontar o dedo a uma determinada empresa. O que me interessa é o modelo de funcionamento.
Não estou a falar de uma perda total da liberdade, nem estou a dizer que estas instituições são uma cadeia. Estou a falar de outra coisa, da liberdade condicionada, da vida organizada por terceiros e da obrigação de obedecer a horários, regras e, algumas vezes, a manias que não são nossas, são manias da Suíça.
A passagem por uma instituição deste género pode ser temporária e ocupar apenas algumas horas por dia. Podemos entrar e sair, regressamos a casa e continuamos a ter a nossa vida. Mas essa liberdade fica condicionada.
E é precisamente aí que começa o problema.
A vaga ideia que tenho de uma Universidade Sénior é semelhante, neste ponto muito concreto, à que tenho de uma cadeia ou de um quartel militar. Não porque estas instituições sejam iguais, pois evidentemente não são, mas porque existe entre elas um elemento que reconheço em comum, durante determinado período passamos a viver segundo regras, horários e obrigações estabelecidos por outros. E são regras que se não comprires levam-te à penalização.
Talvez a comparação mais próxima seja mesmo com a tropa e com o antigo sistema dos quartéis. Na tropa havia liberdade, mas dentro de uma disciplina. Havia horas, ordens, regras, entradas, saídas e obrigações. Podia haver tempo livre, podia sair-se, podia desfrutar-se do ar livre, mas tudo estava enquadrado num sistema ao qual era necessário obedecer.
Até numa cadeia, sendo naturalmente a situação mais extrema de todas as que aqui refiro, a pessoa não permanece necessariamente fechada numa cela durante todo o tempo. Pode haver desporto, períodos ao ar livre e outras actividades. A liberdade existe apenas dentro dos limites impostos pela instituição.
Num lar da terceira idade ou numa estrutura destinada a pessoas idosas, a situação é completamente diferente, mas também existem horários e regras. Há pessoas que ainda podem sair à rua, participar em grupos de cantares populares, jogar, conviver e realizar outras actividades. Outras têm problemas de mobilidade, estão acamadas ou já não conseguem sair. Muitas foram para essas instituições porque estavam sozinhas ou isoladas e já não tinham condições para continuar em casa. Outras escolheram estar ali porque sabem que têm cama, alimentação, roupa lavada, higiene e acompanhamento.
Mesmo quem mantém autonomia passa, porém, a ter de respeitar a organização da instituição, as horas de levantar, deitar, comer, tomar banho ou realizar determinadas actividades.
Não estou, portanto, a comparar a finalidade de uma cadeia com a de um lar, nem a de um quartel com a de uma instituição ocupacional. Estou a comparar sistemas de funcionamento e, sobretudo, aquilo que acontece à liberdade individual quando entramos numa estrutura em que o nosso tempo deixa de depender inteiramente de nós. A liberdade não desaparece. Fica condicionada.
O controlo começa antes de entrar
Talvez nem seja necessário entrar numa destas instituições para começar a sentir essa perda de liberdade.
Na Suíça, quando uma pessoa fica desempregada e passa a receber do Fundo de Desemprego, entra igualmente num sistema de obrigações e controlo. Trabalhou, descontou e adquiriu o direito à prestação, mas não fica simplesmente livre para organizar a sua vida enquanto procura novo emprego.
Passa a relacionar-se com diferentes estruturas, consoante a situação, RAV, Arbeitslosenkasse, Amt für Arbeit, Sozialamt, Gemeinde, Kanton, SECO, IV, AHV/IV ou outros serviços. Cada organismo tem a sua função, regras e competências e, para quem está no centro do processo, nem sempre é simples perceber onde acaba a responsabilidade de um e começa a do outro.
Existem regras, deveres e limitações. Não se pode simplesmente sair do país ou ir de férias como se não existissem obrigações. Há situações que têm de ser comunicadas, compromissos que devem ser cumpridos, candidaturas que precisam de ser demonstradas e medidas para as quais uma pessoa pode ser encaminhada. É aqui que começa a minha crítica. Uma pessoa está desempregada, não está presa.
Quem trabalhou e descontou durante anos contribuiu para ter protecção quando ficasse sem emprego. Não deixou de ser adulto no momento em que perdeu o trabalho, não perdeu a profissão, os conhecimentos, a história ou a capacidade de decidir sobre a própria vida.
Existem obrigações, evidentemente. Quem recebe uma prestação também tem deveres. Mas entre cumprir deveres e passar a ter uma parte excessiva da vida controlada existe uma fronteira que merece ser discutida.
Quando essa pessoa é enviada para uma instituição ocupacional, a sensação de controlo pode tornar-se ainda maior.
Uma coisa é escolher livremente uma formação porque se pretende aprender. Outra é ser enviado para uma medida sabendo que a frequência se encontra ligada às obrigações perante o sistema de desemprego.
Podemos chamar-lhe formação, integração, reinserção, programa de emprego ou medida ocupacional. Para quem está obrigado a comparecer, porém, existe sempre uma realidade por detrás do nome, tem de estar ali. Isso muda a relação da pessoa com aquilo que está a fazer.
Pessoas diferentes, profissões diferentes
Existe outro problema, as pessoas não chegam todas com a mesma história, profissão, idade, capacidade física, formação ou experiência.
Imagine-se um pedreiro que trabalhou toda a vida na construção. Ou um carpinteiro que conhece profundamente o seu ofício. Chega a uma destas instituições e é colocado numa actividade de electrónica.
O que sabe ele de electrónica? Possivelmente nada!
Pode acontecer também o contrário. Uma pessoa com formação superior, um professor, um jornalista, um técnico especializado ou até um médico pode acabar destinada a tarefas de limpeza.
E isto não significa diminuir o trabalho de limpeza. A limpeza também é um trabalho, exige conhecimentos, métodos, produtos adequados, técnicas, máquinas e regras de segurança. A questão é outra.
Qual é a relação entre aquilo que uma pessoa fez durante toda a vida, a profissão que conhece, a experiência que acumulou e aquilo que a mandam fazer dentro da instituição?
Estas estruturas podem possuir actividades relacionadas com limpeza, manutenção de instalações, logística, armazém, carpintaria, construção, andaimes, telhados, electrónica, tecnologia, jardinagem e muitas outras áreas.
É impossível criar dentro de uma instituição uma secção para cada profissão existente no mercado de trabalho. Isso seria irrealista.
Mas colocar uma pessoa numa área completamente diferente daquela em que trabalhou durante anos não significa necessariamente prepará-la para regressar ao mercado de trabalho.
Pode significar apenas ocupá-la e levado por muitos desempregados como uma afronta ou uma desqualificação profissional.
É aqui que surge uma distinção fundamental, ocupar uma pessoa com trabalho não significa formar uma pessoa para trabalhar, quem tem certos diplomas de areas onde poucos conseguem, não se vai colocar esse desempregado em qualquer coisa.
Uma pessoa pode permanecer semanas ou meses a executar tarefas, limpar isto, transportar aquilo, arrumar outra coisa, acompanhar pequenas actividades ou cumprir horários. No fim esteve ocupada, mas a pergunta permanece, aprendeu realmente alguma coisa que lhe será útil profissionalmente? Se essas tarefas não forem da sua àrea a resposta é não!
Formar exige mais do que mandar fazer
Uma formação profissional verdadeira exige explicação, demonstração, prática, acompanhamento, correcção, repetição e, finalmente, autonomia. Mandar executar uma tarefa não é o mesmo que ensinar alguém a executá-la profissionalmente.
Quando alguém entra numa actividade nova deveria, sempre que possível, acompanhar durante os primeiros tempos um profissional experiente. O profissional mostra, o participante executa, o profissional observa, corrige, explica o erro, demonstra a melhor forma de trabalhar e manda repetir.
É uma maneira antiga de aprender, mas continua a ser uma das melhores. Primeiro vemos, depois fazemos acompanhados e finalmente fazemos sozinhos.
Pode ensinar-se teoria numa sala, explicar produtos, materiais, máquinas e procedimentos. Tudo isso tem valor. Mas uma profissão aprende-se sobretudo quando as mãos começam a executar aquilo que a cabeça ouviu.
Se não existir esse acompanhamento, corre-se o risco de ensinar apenas a despachar tarefas e despachar um serviço não significa conhecer uma profissão.
Isto é ainda mais importante em actividades que obrigam a deslocações. Numa oficina, o espaço repete-se, as ferramentas permanecem mais ou menos nos mesmos lugares e o ambiente torna-se familiar. Noutro tipo de trabalhos, cada edifício apresenta condições diferentes e é necessário aprender a observar o local antes de executar a tarefa. Aí não se ensina apenas um trabalho. Ensina-se uma pessoa a pensar profissionalmente.
A barreira da língua
Existe ainda uma dificuldade enorme, a língua. Seria muito diferente se, no Ticino, quem frequenta estas estruturas dominasse suficientemente o italiano, em regiões francófonas, o francês, e em Zurique, o alemão.
Mas podem juntar-se na mesma realidade de formação pessoas com níveis linguísticos completamente diferentes.
Uma pode falar alemão muito bem. Outra compreende razoavelmente. Outra talvez compreenda 30%, outra 20%, outra 10% e outra praticamente zero e todos ficam perante a mesma explicação.
Não estamos necessariamente a falar de um curso básico de alemão, italiano ou francês, que começa do princípio, com as primeiras palavras e as primeiras construções da língua. Pode tratar-se de uma aula técnica, uma explicação profissional ou uma actividade em que é necessário compreender aquilo que está a ser dito.
Quem sabe alemão, francês ou italiano acompanha, quem sabe pouco tenta acompanhar e quem praticamente não sabe começa imediatamente em desvantagem.
Como pode a mesma formação servir da mesma maneira pessoas que partem de níveis linguísticos tão diferentes?
Existem programas que incluem Alemão A1 ou outras formas de apoio linguístico. Isso é positivo e necessário. Na Suíça alemã, compreender instruções, comunicar com colegas, perceber questões de segurança, apresentar-se numa entrevista e responder a um empregador são ferramentas fundamentais.
Mas a língua não deveria transformar-se automaticamente numa barreira maior do que a própria capacidade de trabalhar.
Se estamos perante uma competência essencialmente prática e a pessoa compreende as instruções fundamentais, conhece as regras de segurança e sabe executar correctamente a tarefa, até que ponto deve o nível de alemão impedir o reconhecimento dessa competência?
A pergunta torna-se particularmente importante quando existem exames práticos e certificações profissionais.
Na limpeza, por exemplo, pode existir preparação para avaliações práticas em áreas como utilização de máquina monodisco, máquina de lavar e aspirar, limpeza de escritórios, limpeza sanitária e limpeza de janelas, podendo cada área ocupar cerca de 30 minutos de avaliação.
É lógico que a pessoa tenha de compreender aquilo que lhe é perguntado e as regras de segurança.
Mas se sabe trabalhar, será correcto que a língua acabe por valer mais do que as mãos que sabem executar o serviço?
Cursos, diplomas e promessas
Há situações que considero ainda mais difíceis de compreender. Conheço casos em que uma pessoa foi informada de que iria fazer determinado curso e, quando chegou à instituição, acabou por realizar principalmente outras actividades, nomeadamente limpeza.
Se uma pessoa trabalhou toda a vida como jardineiro e lhe dizem que vai frequentar determinado curso, é legítimo que espere encontrar esse curso quando chega. Não se deve prometer uma coisa e proporcionar outra e há ainda a questão dos diplomas.
Conheço situações em que foi prometido um diploma e, depois de cumpridos os meses previstos, a pessoa regressou a casa sem o receber.
Aprendeu alguma coisa? Certamente!
Pode ter melhorado a língua, adquirido conhecimentos numa actividade, aprendido a utilizar uma máquina ou executado tarefas que anteriormente desconhecia.
Mas, se foi prometido um diploma, onde está o diploma?
Também conheço o outro lado, há quem tenha recebido um diploma ou certificado e, posteriormente, tenha encontrado maior facilidade para conseguir trabalho.
Isso demonstra precisamente a importância de um documento que reconheça aquilo que foi aprendido.
Quem possui um diploma consegue apresentar uma qualificação. Quem não o possui pode encontrar mais dificuldades, a juntar-se à fraca linguagem do Kanton que co-habita e até sentir-se colocado em desvantagem perante candidatos que conseguem provar documentalmente uma formação.
Por isso, quando é prometido um curso, certificado ou diploma, deveria ficar claro desde o início o que será ensinado, quais as condições, que avaliação existe, quem a realiza, qual o nível linguístico exigido, que documento será entregue no final e o que acontece se o participante encontrar entretanto emprego e sair antes da data inicialmente prevista.
O objectivo deveria ser simples, a pessoa sair com alguma coisa que não tinha quando entrou.
Uma competência. Uma formação. Uma certificação. Um alemão melhor. Uma candidatura mais bem preparada. Uma ferramenta digital. Ou pelo menos uma experiência profissional que possa demonstrar.
Candidaturas, tecnologia e procura de emprego
Estas instituições não se limitam necessariamente às tarefas práticas.
Existem programas que incluem Workshops de Candidatura, preparação e desenvolvimento do dossiê de candidatura, estratégias de procura de emprego, modelos de comunicação, auto-avaliação, coaching individual, treino em grupo e desenvolvimento profissional.
Também podem existir módulos de competências digitais, utilização de novas tecnologias e até inteligência artificial aplicada à preparação de candidaturas. Para algumas pessoas isso parecerá básico, para outras não é.
Quem permaneceu vinte ou trinta anos no mesmo emprego pode descobrir, ao ficar desempregado, que a maneira de procurar trabalho mudou completamente.
Hoje é necessário procurar ofertas através de plataformas digitais, utilizar serviços como o Job-Room, preparar documentos electrónicos, responder por correio electrónico, preencher formulários e acompanhar processos que anteriormente poderiam ser resolvidos de outra forma. Nesse ponto, a formação pode ser verdadeiramente útil.
Também podem existir sessões através do Microsoft Teams e formas de acompanhamento à distância, mostrando como estas medidas combinam cada vez mais aprendizagem profissional, procura de emprego e ferramentas digitais.
Algumas horas que ocupam praticamente o dia
Durante algumas horas estamos dentro daquele sistema. Só que essas horas não contam toda a história. Normalmente, muitas destas instituições ficam longe da residência do participante.
É necessário levantar cedo, preparar-se, apanhar transportes, fazer ligações, chegar a horas, cumprir o horário e repetir todo o percurso para regressar a casa.
Quando finalmente chega o chamado tempo livre, uma parte dele serve para descansar, preparar o dia seguinte ou simplesmente dormir porque, na manhã seguinte, tudo recomeça. É por isso que algumas horas podem condicionar um dia inteiro.
Num trabalho normal, cada pessoa procura, dentro das possibilidades existentes, um emprego que se adapte melhor à sua vida, eventualmente mais próximo de casa ou com horários que consigam conciliar-se com a realidade familiar. Quando somos colocados numa medida, essa margem de escolha diminui.
Existem também aspectos muito concretos que fazem parte deste sistema. Pode existir pagamento ou compensação para a alimentação, por exemplo cerca de 15 francos por dia, e transporte público assegurado durante o período da medida.
Mas podem surgir situações curiosas. Se a pessoa tiver de faltar à instituição para cumprir outro Termin relacionado com o próprio sistema, poderá não receber nesse dia o valor destinado à refeição.
Ou seja, falta a uma obrigação para cumprir outra obrigação. Nada disto, isoladamente, parece enorme. Somado, porém, mostra até que ponto a vida diária passa a ser organizada por um conjunto de regras.
Ocupação também pode ter valor
Seria errado escrever apenas sobre os defeitos. Uma instituição ocupacional pode ter uma função social importante. Ficar demasiado tempo em casa pode fazer uma pessoa perder horários, rotina, movimento, contacto humano e até vontade de sair.
Levantar-se, preparar-se, apanhar um comboio, chegar a horas, cumprir uma actividade, almoçar num horário definido, conviver e regressar a casa depois de um dia organizado pode ajudar a recuperar um ritmo de vida. Há pessoas que precisam precisamente disso.
Existem jovens, pessoas de meia-idade e homens já próximos da reforma. Há quem esteja desorientado, quem tenha pouca experiência, quem queira aprender, quem esteja cansado e quem tenha simplesmente perdido o hábito de viver segundo horários.
Para algumas pessoas, a ocupação pode representar movimento físico, disciplina, contacto social e uma razão para sair de casa. O descanso absoluto nem sempre é descanso.
Quando uma pessoa deixa de ter horários, obrigações, movimento e contacto humano, os dias podem começar a passar uns atrás dos outros. Por isso, não considero que tudo o que é obrigatório seja necessariamente inútil.
Alguém pode entrar contrariado e acabar por aprender alguma coisa útil. Pode melhorar o alemão o italiano e ou o francês. Aprender uma máquina. Conhecer uma nova técnica. Voltar a criar hábitos de trabalho. Aprender a fazer uma candidatura ou simplesmente recuperar uma rotina. Tudo isso conta!
A convivência também ensina
Existe ainda uma aprendizagem que não aparece em nenhum diploma. A convivência.
Nestes espaços encontram-se pessoas de diferentes nacionalidades, culturas, idades e percursos de vida. Nem sempre nasce amizade, nem tem de nascer. Mas existe contacto.
Enquanto alguém trabalha ou estuda, pode conhecer um pouco da cultura, dos hábitos, da comida e da história da pessoa que está ao lado.
À hora do almoço, por exemplo, quando cada participante leva a sua comida e utiliza cozinhas ou micro-ondas existentes nas instalações, aparecem à mesma mesa alimentos, costumes e maneiras de viver completamente diferentes. Uma pequena sala pode transformar-se numa representação da própria diversidade suíça.
Há também profissionais que procuram adaptar a comunicação às pessoas que têm à frente e, quando conhecem outras línguas, podem utilizá-las para facilitar a compreensão. Isto também tem valor!
Nem todas as instituições têm a mesma função
É importante não colocar todas as estruturas no mesmo saco. A maior diferença entre instruturas são as pessoas que lá trabalham, a grande parte é muito profissional e atenciosa, digamos um pouco sociólogos. Na Suíça existem diferentes empresas, fundações, escolas e programas ligados à formação, integração, ocupação, desemprego ou acompanhamento de pessoas com dificuldades distintas.
Podemos encontrar nomes como Fachhaus, Stiftung Wisli, estruturas conhecidas como Atelier, ESPAS, Stiftung Chance, Impulsis, AOZ, Arbeitsintegration da Cidade de Zurique, Migros Klubschule e ECAP, entre outras.
Não desempenham necessariamente a mesma função, nem recebem o mesmo tipo de participantes. Alguns sítios, trabalha-se e estuda-se e noutros só se estuda, mas a ideia consensual é a mesma, ocupacional!
A Wisli, por exemplo, representa uma realidade que não deve ser reduzida simplesmente ao desemprego. Existem estruturas deste género que trabalham também com pessoas que sofreram acidentes, doenças ou que apresentam incapacidades físicas, mentais ou outras limitações, ajudando-as a encontrar uma actividade adequada às possibilidades que mantêm.
Uma pessoa pode ter sido saudável e ter trabalhado normalmente durante anos, sofrer posteriormente um acidente ou doença e deixar de conseguir exercer a profissão anterior.
Para essa pessoa, uma estrutura deste género pode significar ocupação, reintegração, acompanhamento, alguma remuneração e a possibilidade de voltar a sentir-se útil.
Já entidades como a Migros Klubschule ou a ECAP podem aparecer noutra parte deste universo, através de cursos de línguas, formação e preparação de pessoas para diferentes necessidades profissionais e sociais. O ponto não é dizer que estas entidades são iguais. Não são!
O ponto é mostrar que existe na Suíça todo um sector que trabalha, directa ou indirectamente, com formação, desemprego, integração, reinserção profissional, serviços sociais e qualificação.
Um sistema que também é uma actividade económica
Existe ainda outra questão que merece ser discutida e este modelo é também uma actividade económica. Para estas instituições funcionarem são necessários edifícios, formadores, professores, orientadores, técnicos, responsáveis administrativos, profissionais especializados, equipamentos, materiais, máquinas, transportes e toda uma organização.
Isto significa que o sistema criado para acompanhar desempregados ou outras pessoas em reintegração também cria postos de trabalho para quem trabalha dentro dessas estruturas. Não vejo nisso, por si só, qualquer problema. Mas é legítimo perguntar quanto custa, que resultados produz e o que fica verdadeiramente para o participante.
Quantas pessoas conseguem emprego depois?
Quantas obtêm uma qualificação reconhecida?
Quantas aprendem algo que podem utilizar profissionalmente?
Quantas estiveram apenas ocupadas?
Se há dinheiro público, contribuições do Fundo de Desemprego ou recursos de serviços sociais envolvidos, é legítimo querer saber que benefício real produz o investimento.
A instituição não consegue fabricar vontade
Também observo outro lado. Há participantes que querem aprender e outros que pouco fazem. Há pessoas mais novas que, apesar da idade, parecem ter menos energia do que homens bastante mais velhos.
Por vezes uma pessoa explica uma tarefa, ouve um “ok”, volta a explicar, recebe novamente um “ok” e, na hora de executar, percebe que o trabalho não aparece. É fácil chamar preguiça a tudo. Nem sempre será justo.
Pode existir desmotivação, cansaço, dificuldades pessoais, barreira linguística, falta de interesse pela actividade atribuída ou simplesmente a sensação de estar ali apenas porque é obrigatório. Mas estar desmotivado não significa que outra pessoa tenha de trabalhar por nós.
Há uma maneira antiga de olhar para o trabalho que continuo a respeitar, podemos não gostar da tarefa que temos nas mãos, mas enquanto estiver nas nossas mãos devemos procurar fazê-la bem.
Pouco aprende quem não quer aprender. A instituição pode disponibilizar salas, formadores, máquinas, materiais, aulas, cursos e oportunidades. Há uma coisa que não consegue colocar dentro da cabeça de ninguém. A vontade. Estar presente não é o mesmo que aprender!
Formação ou passatempo?
É aqui que chegamos à pergunta que considero essencial. Para que servem verdadeiramente estas medidas?
Se servem para ensinar uma profissão, devem ensinar uma profissão. Se servem para melhorar a língua, devem ter em consideração que não se pode ensinar da mesma forma a quem domina a língua e a quem praticamente não a compreende.
Se prometem um curso, devem proporcionar esse curso. Se prometem um diploma, devem entregá-lo quando forem cumpridas as condições anunciadas.
Se pretendem preparar alguém profissionalmente, deveriam considerar aquilo que essa pessoa sabe fazer, a profissão que exerceu, a idade, a experiência, as limitações físicas, o nível da língua, aquilo que ainda pode oferecer e aquilo que realmente precisa de aprender.
Caso contrário, corre-se o risco de transformar tudo isto numa simples ocupação do tempo. Num passatempo obrigatório. Entrar numa instituição ocupacional é como estar contra vontade.
Algumas regras serão necessárias para qualquer instituição funcionar. Isso é evidente. Outras, para quem está sujeito a elas, podem parecer simples manias e quando uma pessoa está ali porque tem de estar, até uma pequena regra ganha outro peso.
Quanto maior for a aproximação entre aquilo que uma pessoa sabe, aquilo que consegue fazer e aquilo que lhe é proposto, maior será a possibilidade de existir verdadeira aprendizagem.
Não será possível satisfazer toda a gente. Não haverá uma oficina para cada profissão nem um curso feito à medida de cada participante, mas as pessoas também não podem ser tratadas como peças iguais.
Um jovem sem experiência profissional não é igual a alguém que trabalhou trinta anos na mesma profissão. Uma pessoa com limitações físicas não é igual a outra sem essas limitações. Quem praticamente não fala alemão não parte do mesmo ponto de quem domina a língua e quem sabe executar uma profissão há décadas não deve ser tratado como se tivesse perdido todos os conhecimentos no dia em que ficou desempregado.
Quem está desempregado não deixou de ser adulto. Trabalhou e descontou!
Tem deveres perante o sistema, mas continua a ter uma história, uma profissão, conhecimentos e capacidade de pensar sobre a própria vida. Entre cumprir deveres e passar a ter a vida excessivamente controlada existe uma fronteira que merece ser discutida.
Por isso continuo a resumir toda esta realidade da mesma maneira:
Entrar numa instituição ocupacional é quase como sair da sociedade.
Não porque desapareçamos dela. Não porque as portas se fechem atrás de nós. Não porque percamos totalmente a liberdade.
Continuamos a regressar a casa, continuamos a poder sair, convivemos com a família e permanecemos dentro da sociedade, mas durante aquelas horas, e durante todo o tempo que gastamos em função delas, deixamos de ser inteiramente donos do nosso tempo. É uma liberdade com horários, obrigações, regras e manias. Quase como na tropa. O verdadeiro sucesso destas instituições não deveria medir-se apenas pelo número de pessoas presentes, pelas folhas de presença ou pelo cumprimento de três meses de calendário. Deveria medir-se pelo que cada pessoa leva consigo quando chega o último dia.
Se aprendeu uma profissão. Se melhorou a língua. Se conseguiu um diploma. Se adquiriu uma competência. Se aprendeu a procurar emprego. Se recuperou uma rotina. Se encontrou trabalho ou se, pelo menos, saiu mais preparada do que entrou.
Porque obrigar alguém a estar presente é relativamente fácil, mas fazer com que essa presença tenha valido a pena é o verdadeiro desafio.

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