Categoria: Sociedade / Trabalho / Curso
Autor: João Carlos Quelhas
Há lugares que se podem visitar durante algumas horas e sobre os quais se consegue escrever uma primeira impressão, mas há outros que só começamos verdadeiramente a conhecer quando passamos a fazer parte do seu quotidiano, quando percorremos os corredores, assistimos às aulas, executamos tarefas, convivemos com profissionais e participantes e começamos a reparar naquilo que normalmente não aparece nas apresentações institucionais.
É dessa forma que tenho observado a Fachhaus, em Schwerzenbach, não como visitante, mas como alguém que ali está, que participa, que vê, que escuta, que trabalha, que frequenta aulas e que, acima de tudo, observa as pessoas, os espaços, os métodos de trabalho, as rotinas, as pequenas falhas e aquilo que também funciona bem.
Eu sempre observei muito os lugares por onde passo, as terras, os edifícios, os hábitos, as pessoas, os comportamentos e os pequenos pormenores, porque muitas vezes é precisamente nesses pormenores que se percebe melhor a realidade de um sítio.
A Fachhaus, para mim, é antes de tudo uma ocupação, e isso não deve ser entendido obrigatoriamente de forma negativa, porque para muitas pessoas ficar demasiado tempo em casa significa perder os horários, perder o ritmo, deixar de sair, comer fora de horas, fazer menos exercício, dormir demasiado, conviver menos e, pouco a pouco, perder a própria rotina da vida.
Ali, a pessoa tem de se levantar, preparar-se, apanhar os transportes, chegar a horas, cumprir actividades, almoçar dentro de um determinado período, conviver com outras pessoas e regressar a casa depois de um dia organizado, e só isso já representa movimento, disciplina e contacto humano.
Há também uma componente de socialização que não pode ser ignorada, porque ali se encontram pessoas de diferentes países, culturas, idades e percursos, nem sempre nasce amizade, nem tem de nascer, mas há contacto, há troca de experiências, há quem aprenda alguma coisa sobre a cultura do outro, sobre a maneira como vive, pensa, trabalha ou até sobre aquilo que leva para comer.
É, portanto, também um espaço onde pessoas que poderiam ficar demasiado tempo fechadas em casa voltam a estar entre outras pessoas, voltam a ter uma razão para sair e voltam a entrar numa rotina diária.
Dentro da instituição encontram-se homens e mulheres de todas as idades, há jovens, há pessoas de meia-idade, há homens já perto da reforma, há quem tenha trabalhado muitos anos, há quem tenha pouca experiência, há quem queira aprender, há quem esteja desmotivado, há desorientação, há pessoas com dificuldades pessoais, há pessoas cansadas, há quem esteja colocado numa actividade que não escolheu e há também quem esteja simplesmente ali porque sabe que tem de estar.
Vejo homens mais velhos que parecem andar ali por andar, homens já gastos por uma vida inteira de trabalho, quase na reforma, e tenho a sensação de que o próprio sistema os mantém ali também para que não fiquem completamente parados em casa. Por um lado, essas pessoas precisam de descanso, por outro, o descanso absoluto pode transformar-se numa espécie de morte silenciosa, não digo isto como afirmação médica, digo-o como reflexão sobre aquilo que vejo na vida, porque quando uma pessoa deixa de ter horários, movimento, convívio, obrigações e uma razão para sair da cama, os dias começam a passar uns atrás dos outros e a pessoa pode lentamente desligar-se da própria vida.
É também por isso que compreendo um certo valor neste tipo de ocupação, mesmo para quem já está cansado, porque sair de casa, caminhar, apanhar um comboio, chegar a horas, conviver e fazer alguma actividade mantém o corpo e a cabeça em movimento.
Ao mesmo tempo, esta reflexão faz-me lembrar pessoas sem abrigo que já entrevistei, algumas preferiam a rua a uma instituição de acolhimento porque diziam sentir mais liberdade, numa casa de abrigo existem horários, regras, entradas, saídas e rotinas, quase como numa instituição onde tudo acontece segundo uma determinada disciplina, e algumas dessas pessoas preferiam a dureza da rua à sensação de perder a liberdade.
Não estou a dizer que a rua seja melhor, estou a dizer que liberdade e segurança não pesam da mesma maneira para todas as pessoas, e isso também ajuda a compreender por que razão algumas pessoas reagem mal a estruturas obrigatórias, mesmo quando essas estruturas foram criadas para as apoiar.
Naquilo que observo na Fachhaus, existe respeito mútuo entre os profissionais e os participantes, há profissionalismo, há quem ensine, há quem acompanhe, há quem tente ajudar e há participantes que aproveitam verdadeiramente aquilo que lhes é dado, por isso não seria correcto escrever um artigo apenas com críticas. Mas também é verdade que uma pessoa que observa acaba por encontrar pequenos defeitos, contradições e situações que poderiam funcionar melhor, e são precisamente esses pormenores que fazem nascer perguntas importantes.
Uma dessas perguntas nasce da diversidade profissional das pessoas que chegam ali, porque dentro da instituição podem cruzar-se dezenas e dezenas de profissões diferentes, há quem tenha trabalhado como chofer, quem tenha sido mecânico, quem tenha trabalhado na construção, quem tenha experiência em limpeza, logística, armazém, jornalismo, carpintaria, electrónica e muitas outras áreas.
É impossível uma instituição possuir um ramo correspondente a cada profissão de cada participante, isso seria irrealista, mas é exactamente aqui que surge uma parte da desmotivação. Um chofer colocado na limpeza dificilmente sente que está a continuar a sua profissão, um mecânico colocado na carpintaria pode sentir o mesmo afastamento, um jornalista colocado na logística também pode perguntar o que está ali a fazer, uma pessoa da limpeza colocada na jardinagem poderá sentir que foi enviada para uma área que nada tem a ver com aquilo que conhece.
Naturalmente, há situações em que existe alguma proximidade, alguém ligado à construção pode ser colocado num trabalho relacionado com telhados e continua mais ou menos dentro do mesmo universo, mas nem sempre essa aproximação existe.
Na Fachhaus existem actividades ligadas à limpeza, armazém, logística, carpintaria, construção, andaimes, telhados, electrónica e outras tarefas, incluindo pequenos trabalhos ocupacionais, como trabalhos com rolhas, e algumas pessoas vão rodando por diferentes áreas. No entanto, a limpeza e os cursos de alemão estão entre as actividades que vejo serem mais frequentadas.
É precisamente aqui que surge um dos problemas centrais, porque muitas pessoas já têm uma profissão e não estão particularmente interessadas em começar outra completamente diferente, não porque desprezem o trabalho, mas porque sentem que foram colocadas onde havia espaço e não necessariamente onde poderiam aproveitar melhor aquilo que já sabem.
A parte pior, para mim, é a obrigação. Quem é encaminhado pela RAV sabe que tem obrigações associadas à manutenção do direito à indemnização de desemprego, e muitos participantes sabem muito bem por que razão estão ali, estão porque têm de estar, mentalizam-se que vão cumprir aquele período, por exemplo três meses, e que, se entretanto surgir trabalho, saem antes.
Uma coisa é alguém escolher uma formação porque quer aprender, outra coisa é ser colocado numa medida e saber que, se não a frequentar, pode ter consequências sobre aquilo que recebe. E há uma coisa ainda pior do que ser obrigado a frequentar, é ser obrigado a frequentar e depois ser colocado numa actividade que nada tem a ver com a profissão que se exerceu ou com aquilo que se pretende fazer no futuro. É natural que isso gere queixas, desmotivação e falta de interesse.
Por vezes trabalho ao lado de pessoas mais novas e digo para fazerem determinada tarefa, respondem “ok”, volto a explicar, dizem novamente “ok”, digo para fazermos o serviço a meias, metade eu, metade a outra pessoa, e depois acontece que o “ok” não se transforma em trabalho e parece que ficam à espera que seja outra pessoa a fazer.
Mesmo com as minhas próprias limitações, noto por vezes que continuo a ter mais energia, iniciativa e agilidade do que alguns jovens que encontro ali, e acabo também por ensinar, explicar, mostrar, chamar a atenção e tentar puxar por eles. Por vezes quase sinto que faço um papel de pai de alguns dos jovens que se cruzam comigo, mesmo com a barreira da língua.
Mas também procuro não reduzir tudo à preguiça, porque há desmotivação, há desorientação, há pessoas com dificuldades pessoais, há gente cansada, há quem esteja colocado numa actividade que nunca quis, há quem esteja ali apenas para cumprir uma obrigação e há quem tenha simplesmente perdido o interesse.
Estar desmotivado pode explicar muita coisa, mas não significa que outra pessoa tenha de trabalhar por nós. Eu próprio posso não gostar da área onde fui colocado, mas isso não significa que, estando ali, deva fazer mal aquilo que tenho de fazer.
Há uma forma antiga de olhar para o trabalho que continuo a respeitar, podemos não gostar da tarefa que temos nas mãos, mas enquanto ela estiver nas nossas mãos procuramos fazê-la bem.
Na minha opinião, pouco ou nada aprende quem não quer aprender. A instituição pode disponibilizar profissionais, salas, máquinas, materiais, cursos, aulas de alemão e diferentes actividades, mas há uma coisa que nenhuma instituição consegue colocar dentro da cabeça de uma pessoa, a vontade.
Quem está ali com os pés assentes no chão e pensa aproveitar aquilo que lhe é dado pode aprender, quem vai completamente contra a vontade pode permanecer semanas ou meses no mesmo lugar e sair praticamente como entrou. Estar presente não é o mesmo que aprender.
Nas aulas também observo muita gente cansada e com sono, e aqui convém não generalizar porque as razões podem ser muitas, há quem tenha de se levantar muito cedo, há grandes deslocações, há vida familiar, há problemas pessoais, há medicação, há pessoas que provavelmente se deitam tarde e há muitos outros factores que eu não conheço.
Mas existe uma realidade simples, quando uma pessoa tem de estar de pé às seis da manhã ou ainda mais cedo para conseguir chegar a horas, o dia começa muito cedo, e uma pessoa sentada numa aula quase a dormir pode estar fisicamente presente, mas dificilmente estará a aproveitar plenamente o que está a ser ensinado.
Os cursos de alemão são muito frequentados e aqui encontro outra questão importante, dentro da mesma realidade de aprendizagem podem estar pessoas com níveis muito diferentes, uns compreendem, outros têm dificuldade, uns acompanham com facilidade e outros ficam perdidos.
A pergunta é simples, de quem é a culpa quando uns entendem e outros não? É do professor, do aluno, da instituição, da entidade que encaminhou aquela pessoa, da forma como os grupos são constituídos ou da falta de interesse de alguns participantes? Provavelmente não existe uma única resposta.
Não considero justo culpar automaticamente quem dá as aulas, porque um professor pode explicar correctamente e ter à sua frente pessoas com níveis muito diferentes, aquilo que para uma é simples pode ser demasiado difícil para outra, e aquilo que ajuda quem sabe menos pode tornar-se demasiado fácil para quem já sabe mais.
Por isso, não basta juntar pessoas numa sala e chamar-lhe curso de alemão, é preciso que os níveis estejam o mais ajustados possível para que as pessoas consigam realmente aprender.
Durante esta passagem fui também percebendo que existem cursos internos e possibilidades de obter diplomas, certificados ou confirmações de participação.
Na área da limpeza existe uma certificação externa, com avaliação prática feita por um profissional especializado, e essa avaliação passa por diferentes áreas, utilização de máquina monodisco, máquina de lavar e aspirar, limpeza de escritórios, limpeza sanitária e limpeza de janelas. Cada uma destas áreas é avaliada durante cerca de 30 minutos.
Foi aqui que me surgiu outra pergunta, se estamos perante competências essencialmente práticas, até que ponto deve o nível da língua alemã determinar se alguém está ou não preparado para chegar a uma certificação?
Naturalmente, é preciso compreender instruções, regras e questões de segurança, isso não está em discussão, mas se uma pessoa sabe executar correctamente um trabalho, deverá a língua tornar-se uma barreira maior do que a própria competência profissional?
Esta questão torna-se ainda mais importante quando, ao mesmo tempo, se encontram participantes com níveis muito diferentes dentro das aulas de alemão.
Na limpeza ou em qualquer outro ramo, também nem tudo é perfeito, existem responsáveis que distribuem tarefas e mandam fazer determinados trabalhos, mas mandar executar uma tarefa não é o mesmo que ensinar uma pessoa a executá-la profissionalmente.
Uma aula teórica é importante, explicar verbalmente é importante, mostrar produtos, máquinas, objectos e materiais também é importante, mas uma profissão aprende-se sobretudo na prática.
Na minha opinião, quem está a aprender uma determinada actividade deveria acompanhar directamente, durante os primeiros dias e, quando necessário, durante aproximadamente uma semana, profissionais experientes que saibam executar bem esse trabalho. Não apenas olhar, mas fazer juntamente com eles.
O profissional mostra, a pessoa executa, o profissional observa, corrige, explica onde está o erro, mostra como se pode fazer melhor, ensina a sequência correcta, ensina a evitar movimentos desnecessários, mostra como utilizar correctamente os materiais e manda repetir até que a pessoa consiga fazer sozinha e com qualidade. Só depois deveria chegar a verdadeira autonomia.
Caso contrário, corre-se o risco de ensinar apenas a despachar tarefas. Despachar um serviço não significa conhecer uma profissão.
Também existe diferença entre trabalhos feitos sempre no mesmo local e trabalhos que obrigam a deslocações. Numa oficina, por exemplo, o ambiente repete-se, as ferramentas estão no mesmo sítio, os equipamentos são conhecidos e os procedimentos tornam-se familiares, a própria repetição ajuda a melhorar.
Mas há trabalhos em que é preciso sair, chegar a outro edifício, encontrar outro espaço, outras dificuldades e outras condições, e nesses casos o acompanhamento de alguém experiente é ainda mais importante. Aí não se ensina apenas uma tarefa, ensina-se uma pessoa a olhar para um local novo e perceber como deve trabalhar nele.
É por isso que faço uma distinção que considero essencial, ocupar alguém com trabalho não significa necessariamente formar alguém para trabalhar.
Podemos manter uma pessoa ocupada durante meses, podemos dar-lhe tarefas todos os dias, podemos dizer-lhe para limpar isto, transportar aquilo ou arrumar outra coisa, e no final essa pessoa esteve ocupada, mas a pergunta continua a ser se aprendeu verdadeiramente uma profissão.
Para existir formação real tem de haver explicação, demonstração, prática, acompanhamento, correcção, repetição e, finalmente, autonomia.
Também existem aulas relacionadas com a procura de emprego, onde aprendemos a procurar ofertas e a enviar Bewerbungen, candidaturas, através do Job-Room. Para algumas pessoas isto pode parecer simples, para outras não é.
Há quem tenha passado muitos anos no mesmo emprego, há quem não domine bem as ferramentas digitais, há quem não esteja habituado às formas actuais de procurar trabalho, e por isso também esta parte pode ser útil. Saber procurar uma oferta, compreender aquilo que é pedido e conseguir enviar correctamente uma candidatura faz hoje parte da própria procura de emprego.
A permanência na Fachhaus durante um determinado período não significa necessariamente que a pessoa tenha de permanecer até ao último dia, porque o objectivo continua a ser regressar ao mercado de trabalho, e se entretanto surgir um emprego, a pessoa pode sair antes do tempo previsto.
Muitos participantes mentalizam-se exactamente dessa forma, tenho de estar aqui estes meses, a não ser que entretanto consiga trabalho.
Há depois todo um lado prático que raramente aparece quando se fala destas medidas. Os participantes têm direito a cerca de 15 francos por dia para a refeição.
Quando alguém falta para comparecer a um Termin, esse valor diário não é pago, mesmo quando esse Termin corresponde, por exemplo, a uma deslocação à própria RAV. Ou seja, a pessoa pode ausentar-se da Fachhaus para cumprir outra obrigação do próprio sistema e perde nesse dia o valor destinado à alimentação.
O transporte público funciona de outra maneira, é pago o bilhete mensal necessário durante o período correspondente, o que naturalmente é importante para quem tem de fazer deslocações diárias.
Muitas pessoas percorrem distâncias consideráveis para chegar à instituição e, quando alguém tem de sair de casa muito cedo, trocar de comboios ou fazer ligações apertadas, a própria deslocação passa a fazer parte do esforço diário.
As instalações possuem cozinhas, mas, pelo menos naquilo que observo, não existe uma cozinha a preparar diariamente as refeições dos participantes, cada pessoa leva normalmente a sua comida de casa e utiliza os micro-ondas para a aquecer.
Também isso cria um ambiente particular à hora do almoço, cada pessoa chega com a sua comida, cada cultura aparece um pouco naquilo que alguém trouxe de casa e a pausa acaba por se transformar também num pequeno encontro entre diferentes maneiras de viver.
Existe uma cafetaria destinada aos responsáveis e existem máquinas onde os participantes podem comprar café e outras bebidas semelhantes, incluindo café com leite, a preços bastante reduzidos. Um café ronda aproximadamente um franco, quando num estabelecimento normal na Suíça pode facilmente custar entre três e cinco francos.
Pode parecer um pequeno pormenor, mas são precisamente estes pormenores que fazem parte da vida diária de um lugar.
A instituição tem dimensão considerável, são três grandes pisos, existem diferentes espaços destinados às várias actividades, salas, zonas de trabalho, cozinhas, várias casas de banho e estacionamento.
Ao longo do dia circulam muitas pessoas entre estes espaços, profissionais, participantes, pessoas que vão para as aulas, outras que seguem para uma determinada actividade, umas entram, outras saem, e durante algumas horas aquele edifício transforma-se numa pequena sociedade dentro da sociedade.
É também por isso que considero que há uma aprendizagem que não aparece necessariamente num diploma, a convivência.
Pessoas de várias origens encontram-se diariamente, nem sempre falam perfeitamente a mesma língua, nem sempre pensam da mesma maneira, nem sempre têm os mesmos hábitos, mas convivem, aprendem pequenas coisas umas com as outras, conhecem outras culturas, outras histórias, outras maneiras de viver.
Para quem esteve demasiado tempo em casa, esse contacto também pode ter importância. Não é apenas estar ocupado, é voltar a estar entre pessoas.
Depois de observar tudo isto, encontro um paradoxo.
A Fachhaus pode ser útil, pode dar ocupação, criar rotina, proporcionar exercício físico, evitar que alguém fique meses fechado em casa, permitir aprender alemão, ensinar conhecimentos de uma profissão, ajudar alguém a aprender a utilizar o Job-Room e a enviar Bewerbungen, criar contactos entre pessoas de culturas diferentes, dar acesso a cursos, diplomas, certificados ou confirmações de participação e preparar alguém para regressar ao mercado de trabalho.
Há profissionais que fazem o seu trabalho com seriedade, há participantes que aproveitam, há respeito mútuo e há profissionalismo. Mas existe também a outra face, a obrigação.
Se alguém está ali porque quer aprender, parte de uma posição, se está porque sabe que tem de cumprir a medida para manter os seus direitos, parte de outra completamente diferente. E se, além disso, for colocado numa actividade distante da profissão que exerceu durante anos, a desmotivação torna-se ainda mais compreensível.
Um sistema pode organizar horários, criar cursos, contratar profissionais, comprar máquinas, disponibilizar edifícios, pagar transportes e estabelecer regras, mas não consegue fabricar vocação nem consegue criar interesse através de uma ordem administrativa.
Talvez seja esta a reflexão mais importante que retiro de tudo aquilo que tenho observado.
Antes de colocar alguém numa determinada actividade, seria importante olhar mais para a pessoa, qual é a sua profissão, qual é a sua idade, qual é a sua experiência, qual é o seu nível de alemão, o que consegue fisicamente fazer, o que pretende fazer profissionalmente, que competências lhe faltam e o que poderia realmente aprender durante aquele período.
Não será possível satisfazer toda a gente, não haverá uma oficina para cada profissão e não haverá um curso feito à medida de cada participante, isso seria irrealista, mas quanto maior for a aproximação entre aquilo que uma pessoa sabe, aquilo que pode fazer e aquilo que lhe é proposto, maior será provavelmente a possibilidade de existir verdadeira aprendizagem.
Também não quero cair no extremo de dizer que tudo o que é obrigatório é inútil. Uma pessoa pode chegar contrariada e, algum tempo depois, descobrir alguma coisa que lhe seja útil, pode melhorar o alemão, aprender uma máquina, conhecer uma nova técnica, recuperar hábitos de trabalho, aprender a fazer uma candidatura, voltar a conviver ou simplesmente voltar a levantar-se todos os dias a uma hora certa. Tudo isso conta.
Mas para que uma instituição destas seja verdadeiramente um espaço de preparação para o mercado de trabalho e não apenas um local de ocupação, é necessário que a prática acompanhe a teoria, que a pessoa seja acompanhada até saber executar correctamente aquilo que lhe estão a ensinar e que, sempre que possível, a actividade tenha alguma relação com aquilo que essa pessoa sabe fazer ou pode vir a fazer.
No final, todos podem estar no mesmo edifício, cumprir o mesmo horário, passar pelas mesmas salas e ouvir as mesmas explicações, mas não saem todos dali com a mesma coisa.
Um aproveita, outro não, um pergunta, outro dorme, um experimenta, outro espera, um quer aprender, outro conta os dias para sair, e há ainda aquele que entrou sem interesse e acabou por descobrir alguma coisa que lhe despertou vontade.
As instituições trabalham com pessoas, e as pessoas nunca funcionam todas da mesma maneira.
Não considero a Fachhaus um lugar perfeito, também não a considero um lugar inútil.
Considero-a um reflexo de um sistema que tenta encontrar uma resposta para pessoas desempregadas, pessoas encaminhadas por estruturas sociais, pessoas que precisam de formação, pessoas que precisam de rotina e pessoas que, muitas vezes, já sabem trabalhar mas estão temporariamente fora do mercado de trabalho.
Juntar todas estas realidades debaixo do mesmo tecto não é fácil, é natural que existam falhas, é natural que existam queixas e também é justo reconhecer aquilo que funciona.
A minha crítica não é dirigida às pessoas que trabalham ali, é uma reflexão sobre o modelo, porque vejo profissionalismo e respeito, mas vejo também participantes colocados em áreas que não correspondem às suas profissões, vejo diferentes níveis de alemão dentro da mesma realidade de aprendizagem, vejo teoria onde gostaria de encontrar mais acompanhamento prático, vejo pessoas que aproveitam e outras que apenas cumprem, vejo juventude com pouca energia e homens mais velhos que, apesar do peso dos anos, continuam a mexer-se, vejo desmotivação e vejo também oportunidades.
É esta mistura que torna o lugar interessante para observar.
No fim de tudo, continuo a considerar que a Fachhaus é uma ocupação, dá para aprender alemão, dá para adquirir conhecimentos profissionais, dá para aprender a procurar emprego, dá para recuperar uma rotina, dá para conhecer pessoas e culturas e, para quem tiver consciência de que quer aproveitar aquilo que encontra, pode ser bom.
O que não considero bom é a obrigação aplicada da mesma forma a pessoas com profissões, idades, experiências, limitações e objectivos completamente diferentes.
Podemos obrigar uma pessoa a levantar-se às seis da manhã, a sair de casa, a apanhar o comboio, a chegar a horas, a entrar numa sala, a permanecer numa oficina, a cumprir uma medida durante três meses e até a exercer temporariamente uma actividade que nunca escolheu, mas há uma coisa que nenhum regulamento consegue ordenar, a vontade de aprender.
Essa vontade continua a nascer dentro de cada pessoa.
Talvez o verdadeiro desafio destas instituições não seja conseguir que as pessoas estejam lá, porque isso, através da obrigação, é relativamente fácil, o verdadeiro desafio é fazer com que, quando chegar o último dia, cada pessoa possa olhar para trás e dizer que não esteve apenas ocupada, esteve ali e aprendeu alguma coisa que leva consigo.
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