Categoria: Gastronomia e opinião
Autor: João Carlos Quelhas
Diz o povo que no proveito está o ganho. Hoje, umas batatas assadas que tinham sobrado ganharam lugar numa nova refeição. Cortei bacalhau em fatias finas, acabado de demolhar, fritei-o em azeite e juntei as batatas para aquecerem. Já tinham tempero e o bacalhau conservava algum sal, por isso não acrescentei mais nada além do azeite. O paladar ficou bom.
Gosto de pôr nos meus pratos fruta, tomate ou pepino. Desta vez, acompanhei com uvas pretas e tangerinas. Nos assados, gosto especialmente de laranja às fatias, para comer a acompanhar e cortar a sensação de gordura no paladar.
Mas não vou dizer que aproveito tudo. Nem tudo o que sobra consigo comer à noite ou no dia seguinte, tenho «boca fraca». Há, porém, pratos que como bem depois de arranjados de outra maneira, tal como este.
É pena o que sobra todos os dias, porque cozinhamos à mão cheia. Lá em casa, essas sobras davam para alimentar duas crianças. Custa reconhecer, mas também é preciso olhar para os nossos hábitos. A generosidade de uma panela cheia deve andar de mãos dadas com o cuidado de não deixar perder a comida.
Este prato é um pequeno exemplo do que consigo aproveitar com gosto. As batatas já estavam feitas, bastou juntá-las ao bacalhau e ao azeite para voltar a ter uma refeição que me soube bem. O ganho está naquilo que aproveitamos, mas também em aprender a cozinhar na medida do que comemos.
Mais tarde, direi o que comeria todos os dias sem enjoar. É falarei daqueles que criticam o que os outros comem, sem conhecerem a natureza de cada pessoa nem as razões das suas escolhas. Não comer bifes todos os dias nem sempre é por enjoo ou por falta de dinheiro. Antes de julgar o prato alheio, convém conhecer a razão de quem se senta à mesa.
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