Categoria : Conto/ Fantasia
Autor : Artur Silva
Vou contar-vos uma história tecida de magia. Certo dia, enquanto desvendava os segredos do velho baú onde repousavam as memórias herdadas do meu avô, resgatei do esquecimento um livro antigo. Era a relíquia que eu julgava perdida no tempo; aquela cujas páginas guardavam os encantamentos sussurrados que me embalavam o sono na infância. Nesse instante, o meu rosto iluminou-se de um júbilo puro, devolvendo-me a inocência de uma criança que recebe o mais doce dos tesouros.
O companheiro secreto dos meus primeiros anos renascia ali, diante dos meus olhos. Acolhi-lho nos braços com uma sofreguidão reverente e, num sopro breve, mas soprado de alma, dissipei a névoa de pó que há tanto tempo lhe velava a capa.
— Cof! Cof! Sorvo, enfim, o éter da liberdade!
— Quem me desperta com a voz?
— Eu, João! Ecoo aqui, no aconchego das tuas mãos!
Subitamente, o volume desprendeu um fulgor magnético, tecendo uma coreografia de matizes como se o próprio arco-íris se tivesse desfeito em luz. Fixei o olhar nos meus dedos, assombrado: aquela encadernação pulsava com um sopro de vida própria.
— Tu falas? Como decifras o meu nome?
— Sou um livro, João. Falo porque guardo mundos e dou asas a quem me folheia. Conheço-te desde a tua mais tenra aurora, quando o teu avô te embalava com os meus relatos. O teu pai guardava silêncio perante as minhas páginas, mas tu... tu devoravas cada palavra, naufragando em sonhos por paragens místicas. As folhas de um livro adivinham sempre quando são amadas.
— É verdade... — murmurei, resgatando a memória. — Escutava cada sílaba em recolhimento. À noite, navegava por esses reinos e, ao amanhecer, o pátio transformava-se no palco onde eu vestia a pele do teu herói. Mas o crepúsculo trouxe o silêncio. Um dia, o meu avô não regressou para o beijo de boa noite, nem para me libertar nas asas daquela última história.
— E, desde esse eclipse, o teu pai sepultou-me neste baú, um cárcere de sombras e poeira, esquecido entre os despojos do tempo. Desde então, a solidão foi o meu único leitor. Julguei que as minhas sagas tinham perdido o encanto, condenado a ver as minhas páginas desmancharem-se no esquecimento.
— Chorei rios de ausência pelo meu avô e pelo teu universo perdido. Mentiram-me, dizendo que o teu paradeiro era um mistério. O tempo correu, os meus olhos procuraram outros rumos e a tua lembrança desbotou... Até hoje, que o destino nos uniu de novo. Prometo resgatar-te. Quero voltar a habitar esses lugares encantados que outrora semearam magia na minha infância.
— Hesito, João... O tempo esculpiu-te em adulto e os meus contos trazem o perfume da infância. Carregas agora outros afãs. Há eras que ninguém levanta voo com as minhas linhas; temo que o teu olhar já não encontre beleza na minha essência.
— Permite que seja o meu coração a decidir.
Compenetrado, comecei a desfolhá-lo, absorvendo a essência mágica que emanava das palavras escritas. A minha mente, liberta, começou a trilhar caminhos e lugares que o tempo havia longamente votado ao esquecimento.
Tinha voltado a ser criança…
De súbito, um clarão fulgurante inundou o sótão, arremessando-me para a penumbra de um canto.
— João! Sobe para o meu dorso! Vamos voar!
—Mas…!
— Rápido! Antes que o encanto se desfaça, mexe-te!
Atónito, corri em direção ao livro colossal que se erguia diante de mim. Tentei escalar aquela montanha de papel; por duas vezes as minhas mãos deslizaram pelas páginas, mas, num esforço derradeiro, consegui finalmente instalar-me no seu lombo pergaminhado.
— Ufa! Ufa! Ai, que já não tenho idade para estas audácias! Mas… para onde voamos?
— Cruzaremos os céus até ao deserto, ao encontro do Pequeno Príncipe.
Zarpámos do sótão numa velocidade vertiginosa, ziguezagueando por entre a silhueta dos prédios até rasgarmos a imensidão do firmamento.
— Yuppiiii! Estou a voar! A voar nas asas de um livro!
— Não te agites tanto, João. Daqui a pouco cais no abismo. Lembra-te de que sou velho e faltar-me-á o sopro para te resgatar em queda livre.
Avançámos cavalgando as páginas abertas, num voo vertiginoso. Planava por entre as nuvens, exultante como uma criança, esquivando-nos com destreza de cidades e montanhas cinzentas, até o horizonte se tingir de ouro. Aterrámos com a delicadeza de uma pena. Transbordante de alegria, desatei em saltos festivos.
Estava dentro de um livro!
— Shiuuu! Guarda silêncio. Eles não podem pressentir a nossa audácia. Se os assustares, corremos o risco de quebrar o encanto, deixando-nos exilados neste mar de areia para todo o Sempre.
Ali estava ele. Sentado no topo de uma duna solitária, com o seu cachecol de seda dourada a flutuar ao sabor da brisa do deserto, contemplando as estrelas com um olhar que parecia carregar a sabedoria de mil universos.
O Principezinho não se sobressaltou com a nossa chegada; limitou-se a sorrir, como quem aguarda visitas há muito semeadas nas páginas de um velho amigo.
— Olá — disse ele, e a sua voz tinha o tilintar de pequenos sinos de cristal. — Vieram de muito longe?
Aproximei-me devagar. A areia fina deslizava-me entre os dedos enquanto eu assistia, deslumbrado, à própria inocência feita pessoa. Atrás de mim, o livro colossal cerrou-se com suavidade, repousando como uma criatura cansada, mas altiva pela viagem cumprida.
— Viemos do cimo de um sótão, cruzando cidades e nuvens — respondi, num sussurro quase suspenso, temendo que a minha gravidade de adulto pudesse romper a fragilidade daquele instante. — Queríamos saber se a tua rosa continuava segura.
O principezinho colheu os olhos por um breve momento, e uma sombra de terna melancolia desenhou-se no seu rosto. Depois, apontou para o firmamento, para um ponto fulgurante e invisível aos olhos comuns.
— Ela está bem — garantiu, com o olhar novamente aceso. — Todas as noites lhe dou de beber e a resguardo sob a redoma de vidro. Os adultos julgam que as coisas invisíveis carecem de importância, mas são as únicas que verdadeiramente importam. Tu compreendes, não compreendes?
Olhei para o livro monumental que nos trouxera ali e, finalmente, desvelei o segredo. A magia não residia na travessia física, mas na audácia de redescobrir o mundo através do coração de uma criança. Sentei-me ao seu lado na duna, despindo-me do tempo, dos anos e das gravatas, pronto para escutar o silêncio das estrelas que sabem rir.
Permanecemos estáticos, convertidos em testemunhas silenciosas daquela história que ganhava vida. Era como se o tempo recuasse e nos sentássemos no camarote de um teatro antigo, absortos nos diálogos e na coreografia eterna das personagens de «O Principezinho».
Cada palavra que ecoava resgatava os fragmentos da minha infância, devolvendo-me os ensinamentos guardados na voz do meu avô e nas páginas daquele livro — faróis discretos que me guiaram ao longo da vida.
Consumada a narrativa, regressámos ao sótão com passos céleres, sentindo que a penumbra daquele lugar já começava a reclamar a magia que ali se dissipava.
— E então, João? Encontrastes o que procuravas na história?
— Sim. Encontrei-me nela. Há tanto que a memória me traía... É um manifesto sobre a amizade, um vislumbre de que apenas um coração desprovido de amarras consegue tecer o mais nobre dos laços: o amor. Afinal, a verdade permanece imutável: «só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.»
Desci daquelas páginas com a leveza de quem flutua entre o sonho e a vigília.
Mas o chão era firme; eu estava acordado. Antes de se render ao silêncio dos objetos comuns, o livro fitou-me com a sua alma de papel e sussurrou o seu último pedido: — João, transporta contigo um pedido meu: partilha com os teus filhos e netos as sementes que em ti plantei. Se o teu veredicto for devolver-me ao exílio daquele baú gélido, por julgares que o meu tempo findou, farei o meu luto sem rancor. Cumpri o meu destino; outros irmãos meus perpetuarão o meu legado pelo mundo. A escolha pertence-te. Foste, desde sempre, um guardião da pureza. Só te peço um favor: nunca permitas que morra a criança que habita em ti.
Mal o eco das suas palavras se desfez, o livro desamparou-se, estatelando-se no soalho como um pássaro que esqueceu o voo. Recolhi-o com a delicadeza devida às coisas sagradas e trouxe-o comigo.
O velho livro estava de regresso ao seu lugar… A estante de onde nunca deveria ter saído.
Desde esse dia, o velho volume repousa na estante da biblioteca, numa eterna e paciente expectativa. Mas o seu descanso é breve. Sempre que os meus netos entram em casa, o silêncio da sala dissipa-se com o som dos seus passos apressados em direção aos livros. Correm para mim, puxando-me pelas mangas do casaco com um entusiasmo indomável.
— Avô, por favor! — implora o mais novo, com os olhos muito abertos e brilhantes. — Só mais uma vez! Diz ao Principezinho para não voltar já para o asteroide dele!
— Calma, pequenos exploradores — respondo, deixando-me sentar na poltrona antiga enquanto os acolho nos meus braços. — Sabem que as estrelas precisam de tempo para acender as suas luzes.
— Mas tu prometeste, Avô! — atalha a mais velha, sentando-se no tapete a meus pés, com o queixo apoiado nas mãos. — Tu disseste que se nós escutarmos com muita atenção, conseguimos ouvir o riso das estrelas, igualzinho ao do livro. Mostra-nos como se faz?
Olho para os seus rostos puros, ávidos por mistério, e sinto um nó de profunda gratidão na garganta. Retiro o livro da estante, acariciando a capa desgastada pelo tempo. O pacto com o velho livro estava selado; a criança em mim permanecia viva através deles.
— Está bem — sussurro, abrindo as páginas amareladas onde habita o deserto do Saara. — Mas recordem-se do segredo que o avô vos ensinou: fechem os olhos. Para ver as coisas mais bonitas do mundo, os olhos não servem de nada. É preciso usar o coração.
Acolho-me no chão, aninhado entre as crianças que se comprimem à minha volta, como pétalas que se fecham ao redor de um segredo. À medida que lhes teço a história mais enriquecedora que alguma vez escutaram — a saga intemporal da amizade e da solidariedade —, o quarto silencia-se.
Rostos pequeninos inclinam-se para a frente, suspensos de cada palavra. Nos seus olhos bem abertos, vejo o reflexo puro da maravilha; as bocas, entreabertas pelo espanto, parecem prender a respiração para não quebrar o encanto. Algumas mãos apoiam o queixo com devoção, enquanto outras se entrelaçam discretamente, vivendo na pele a união dos personagens.
Termino sempre com o meu selo predileto, gravando-o no silêncio solene da sala: «Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.».
Ao devolvê-lo à quietude da estante, o livro pulsa com um brilho suave, num mudo agradecimento pela pureza com que os pequenos ainda o acolhem. Uma voz doce ecoa na minha mente, vinda do próprio papel:
— Obrigado, João!
Com a alma transbordante, desfolho um sorriso para aquela constelação de olhares atentos e partilho com eles o último ensinamento:
— Meninos, recordem-se sempre: nunca deixem morrer a criança que há em vós!
O livro mágico viverá para sempre no nosso âmago!

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