O poema dos cascos e da brasa:

Categoria: Conto, tradições e cultura

Autor: Artur Silva


Introdução

Há geografias míticas onde o tempo recusa a sua marcha linear; prefere galopar. No coração mais profundo da lezíria ribatejana, quando novembro se anuncia sob um manto de névoas e o perfume a castanha e brasa invade as ruelas caiadas, a Golegã sagra-se catedral viva da alma lusitana. Esta narrativa é uma prece sensorial, uma viagem afetiva às entranhas da Feira de São Martinho, onde a tradição morde o freio com fúria e o pulsar da terra se confunde com o bater dos cascos. Uma elegia à simbiose eterna entre o homem, o cavalo e as memórias que a voragem dos anos jamais ousará apagar.

Sinopse

Uma liturgia telúrica de fumo, brasa e paladar, onde o Ribatejo se oferece em banquete.

Na Golegã outonal, a celebração inicia-se na boca e na alma: sabe ao calor antigo das castanhas que crepitam no assador e confortam as mãos frias; sabe ao magnetismo rústico do torricado, aquele pão massaroca tostado no braseiro, generosamente batizado pelo alho esmagado e pelo azeite novo. Por entre tertúlias aquecidas pela carne de alguidar e pelo sangue rubi do vinho novo de São Martinho, o velho campino Manuel fita o Arneiro através de um véu de lágrimas e saudade. Enquanto as guitarras carpem o fado vadio na última madrugada e o cabedal untado dos cavalos canta a sua melodia mecânica, a gastronomia e o mito fundem-se num abraço geracional, perpetuado no olhar audaz do seu jovem neto.

Conto

O outono derrama sobre o Ribatejo uma névoa de ouro e cinza, um sopro sagrado e primevo que se levanta das águas calmas do Tejo para adormecer a planície infinita. Quando novembro se anuncia no calendário do tempo, há um chamamento visceral, quase doloroso, que ecoa nas veias da alma lusitana: todos os caminhos passam a convergir para o mesmo coração que pulsa na lezíria. A Golegã despe-se então da sua pacatez de vila para se sagrar mito vivo, catedral de terra e sonho, onde o tempo suspende os ponteiros e a memória galopa, livre, altiva e indomável, de braço dado com a própria eternidade.

Encostado ao caixilho de uma tertúlia, com os olhos baços e marejados pelo fumo e pela idade, o velho Manuel fita o Arneiro. A sua mão, outrora firme a domar a pampilha nos campos e hoje sulcada como a terra sedenta do verão, aperta o cabo de madeira com uma ternura feita de pura saudade. Naquela silhueta curvada pelo peso dos anos, habita o silêncio litúrgico de quem guarda um mundo inteiro no peito. Para ele, a Feira de São Martinho não se explica; comunga-se no pulsar telúrico do chão que ele tantas vezes castigou na juventude, quando o sangue lhe fervia nas veias como vinho em pipa nova e o corpo desafiava as leis da gravidade.

O ar, denso de promessas e rituais antigos, transforma-se numa tapeçaria invisível onde se tecem os aromas da terra e os cantos da celebração. Há uma partitura sagrada, um poema feito de carne, nervo e fúria, sussurrado no bater compassado dos cascos que fustigam o picadeiro. Há também uma melodia oculta que Manuel reconhece de olhos fechados: o chiar do cabedal untado, a respiração orgânica dos arreios que cantam a cada movimento do bicho. O couro grosso das selas portuguesas, trabalhado pelas mãos pacientes de correeiros antigos, exala um perfume azeitado e forte, que se funde com o suor morno do cavalo. As fivelas de metal e os estribos de latão reluzem à luz fraca como pequenas estrelas caídas, enquanto os peitorais recortados desenham arabescos de pele sobre o peito musculado das montadas. É uma estética da nobreza rural, onde cada costura, cada cabeçada e cada freio de cantos brunidos são uma vénia à dignidade da montaria.

De repente, o ruído da multidão parece dissipar-se numa névoa densa e cúmplice. Um cavalo tordilho, de porte imperial e garbo escultural, entra no picadeiro erguendo nuvens de poeira dourada. O bater do seu casco é firme, mas o que faz o coração de Manuel saltar no peito é o som que o acompanha: aquele chiar único, aquele gemido do couro que ele conhecia melhor do que a própria voz. Fixando o olhar cansado, o velho vê o peitoral com o mesmo desenho de trevo que mandara entalhar há meio século, e a sela à portuguesa, cuja pele escura guardava o contorno exato do seu corpo de jovem campino. Sobre a montada, o seu neto, esguio e de olhar audaz, veste a jaqueta curta com o mesmo rigor altivo dos homens da lezíria.

O jovem abranda o tordilho mesmo em frente à tertúlia. O cavalo solta um sopro quente que rasga o frio da noite. Os olhos do rapaz cruzam-se com os do avô. Não há palavras, pois a planície não precisa delas para se fazer entender. O neto leva a mão direita à aba do chapéu num gesto de profunda vénia, enquanto o velho Manuel, com o peito a transbordar de um orgulho que lhe aperta a garganta, apenas acena com a cabeça. Naquele breve segundo, o tempo deixa de ser uma linha reta; os arreios antigos unem o passado e o futuro num arco eterno. A juventude de Manuel não morreu; corre agora naquelas rédeas, herdada pelo sangue que continua a honrar a terra.

Sob a aba do chapéu, o peito do jovem Afonso bate ao mesmo ritmo dos cascos do tordilho, esmagado pela imensidão daquele instante. Sentir o peso daquela sela antiga nas pernas não era apenas montar; era carregar o suor, as madrugadas de geada e a honra mística de todos os homens que o antecederam na planície. Quando os seus olhos encontraram os do avô, Afonso sentiu um arrepio elétrico correr-lhe a espinha: o cabedal cansado que chiava sob o seu corpo já não era couro velho, era um cordão umbilical feito de pele e sangue que o amarrava à eternidade da sua gente, transformando o orgulho do velho Manuel na sua própria armadura para o futuro.

Manuel fecha os olhos por um segundo e, no escuro da memória, o Arneiro despe-se da luz elétrica de hoje. Ele regressa às feiras da sua mocidade, iluminadas pela chama trémula dos archotes e dos candeeiros a petróleo, onde as sombras dos animais ganhavam tamanhos gigantescos nas paredes caiadas. O cavalo lusitano, escultura viva de força e graça, reina ali como o monarca absoluto dos corações. O velho campino lembra-se do seu primeiro baio, da crina longa que lhe roçava nas mãos como seda brava e do compasso perfeito daquele trote suspenso que fazia tremer o peito de quem o fitava. Cavaleiros e amazonas, moldados com o rigor e a nobreza intemporal do traje, fundem-se com as suas montadas num abraço eterno de respeito e paixão.

Quando o crepúsculo recolhe as suas últimas luzes e o frio cortante da noite ribatejana se instala na pele, o picadeiro incendeia-se numa mística quase religiosa. A névoa da noite confunde-se com o fumo branco, denso e perfumado que sobe dos assadores de castanhas, como incenso erguido aos deuses da tradição. Manuel recorda o riso de uma rapariga de xaile negro, cujo olhar se cruzou com o seu por entre esse mesmo fumo, há cinquenta outonos atrás, num namoro calado e campero que o tempo acabou por levar. O estalar nítido da casca carbonizada abre caminho ao fruto dourado, quente e fumegante, milagre humilde que aconchega as mãos frias e alumia os cantos mais escuros da alma.

Mas a liturgia da mesa vai ainda mais fundo na carne da terra. O paladar da Golegã é generoso, grato, feito de fogo e partilha. Nas tertúlias aquecidas pela lareira e pelo afeto, o perfume magnético do torricado, aquele pão rústico, generosamente batizado pelo azeite novo e perfumado pelo alho esmagado antes de se deitar ao braseiro, rasga um sorriso nos rostos e celebra os sentidos. Ao seu lado, a carne de alguidar, tenra e apurada nos segredos da vinha-d'alhos, ou o bacalhau lascado que traz a saudade do mar para se casar com a doçura e a força do campo. Para o velho campino, cada garfada sabe ao suor do trabalho na lezíria e à resistência de um povo que sabe comer com devoção.

E depois, o vinho novo de São Martinho, esse sangue rubi da festa que corre em copos de mão em mão, quebrando distâncias e desfazendo solidões. Manuel ergue o seu copo de barro, num brinde solitário aos companheiros de outrora que a terra já colheu. O vinho traz consigo a força telúrica da uva esmagada com esperança e a cor ardente dos poentes de outono. As vozes erguem-se num coro espontâneo, os risos soltam-se puros, cruzando-se no ar com os relinchos altivos que ecoam ao longe e com o sussurro do couro que morde as cilhas da selagem. Há uma alegria indomável, uma comunhão fraterna que só as terras que guardam uma alma antiga conseguem parir.

Quando a última noite atinge a sua hora mais boémia, a feira recolhe-se para dentro das paredes grossas das tertúlias. O cansaço cede lugar a uma melancolia festiva, um lamento doce que escorre das cordas da guitarra portuguesa. À luz trémula das velas, o metal das violas chora as primeiras notas do fado vadio, rasgando o silêncio pesado da madrugada. Homens de barrete e xaile aos ombros escutam de cabeça baixa. Uma voz rouca e telúrica ergue-se do fundo da sala, cantando a despedida, a saudade do campo e o destino livre de quem nasceu na lezíria. É um transe vadio, um fado corrido onde os copos já não batem, mas balançam ao ritmo da mágoa e da promessa de regresso. As guitarras choram baixinho pelos cantos, gemendo em uníssono com o vento frio que espreita pelas frinchas das portas de madeira, celebrando a boémia incorrigível de uma terra que só sabe viver em absoluto.

Quando a madrugada se aproxima e o restolho dourado da feira brilha suavemente sob o luar e a luz dos candeeiros, o velho Manuel ajeita o seu barrete verde e preto, soltando um suspiro longo que se confunde com la bruma. Sabe que a Golegã não é uma feira, é um reencontro sagrado com a nossa própria identidade. É o orgulho selvagem de uma tradição que morde o freio e se recusa a morrer, a apoteose da terra que nos sustenta e a beleza intemporal do cavalo que nos empresta asas para fugir do efémero. Ali, entre o fumo sagrado das castanhas, o chiar rítmico do cabedal e o eco imortal dos cascos, o Ribatejo chora de alegria e canta o seu poema mais eterno, guardado nos olhos cansados de um velho que nunca deixará de ser campino.


Revista Repórter X / Repórter Editora

Comentários