O sabor da nossa terra não se mede pelo preço:

Categoria: Gastronomia e opinião

Autor: João Carlos Quelhas

Há pratos simples, fáceis e rápidos de fazer, que trazem à mesa o sabor autêntico das nossas terras e das nossas gentes. Quando digo que são baratos, não estou a dizer que os faço para poupar na comida. Graças a Deus, pode não haver dinheiro para muitas coisas, mas para comer houve sempre e tem de continuar a haver. O que aqui quero partilhar é o gosto pela nossa cozinha, pelas tradições e por aquilo que nos sabe bem, independentemente do preço.
Hoje apeteceu-me sardinha assada, um peixe do Atlântico com lugar antigo na mesa portuguesa. A sardinha era congelada e levou apenas sal. O pimento também foi temperado com sal e as batatas tiveram primeiro uma cozedura em água com sal, seguindo depois para a grelha. Não acrescentei azeite, a gordura que saiu naturalmente da sardinha deu sabor à batata e ao pimento. À mesa, pão, vinho e fruta a acompanhar.
Muita gente não faz sardinhas porque não tem um terraço ou uma varanda, aquilo a que muitos de nós, aqui na Suíça, chamamos um balcão. Fazê-las dentro de casa deixa aquele cheiro que, como digo na brincadeira, parece ficar durante oito dias. Tenho a sorte de ter uma varanda grande, onde preparo os meus assados e faço aquilo que me apetece no momento. Hoje foram sardinhas, noutros dias serão outros sabores.
Há quem critique o emigrante pelo que põe no prato. Dizem que só come enlatados, atum, sardinha em lata, ovos, salsichas e por aí fora. Às vezes, até uma sardinha assada serve de motivo para comentários. Mas perguntam por que razão aquela pessoa escolheu aquela refeição? Conhecem os seus gostos, as suas circunstâncias ou aquilo que lhe apetece comer naquele dia?
Estes alimentos têm características diferentes e podem entrar em refeições variadas e saborosas. Não se trata de comer sempre a mesma coisa. Na minha opinião, só bifes também enjoam, tal como só frango assado ou sempre os mesmos grelhados. É preciso variar e respeitar o gosto de cada um. Uma refeição simples não conta, por si só, a história da carteira de ninguém.
Prometi fazer várias gravações de pratos e sabores tradicionais portugueses e quero cumprir essa promessa. Quero recordar o vinho verde tinto com broa de milho e açúcar, os ovos batidos com açúcar amarelo, as alheiras acompanhadas de broa caseira, o bacalhau frito também com broa e o chouriço assado com aguardente. São sabores que fazem parte das nossas memórias, dos costumes que conhecemos e das mesas à volta das quais crescemos.
Não é uma questão de serem baratos ou caros. É uma questão de sabor, de vontade e de tradição. Antigamente, queríamos muitas vezes comer um bife e não tínhamos possibilidade. Hoje podemos ter dinheiro para o comprar e, mesmo assim, não nos apetecer. Apetece-nos antes uma sardinha, um pedaço de broa ou uma alheira, e isso também é saber escolher o que nos dá prazer à mesa.
Antes de criticarem o que os outros comem, procurem perceber a razão da escolha. Nem tudo se explica pela necessidade de poupar. Há refeições que escolhemos porque nos sabem bem e porque, mesmo longe de Portugal, nos fazem sentir em casa.


Revista Repórter X / Repórter Editora

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